Uma crença silenciosa em Anjos

Aproveito um instante para recordar toda a minha vida, e tento vê-la pelo que foi. Em meio à loucura que encontrei, à correria e ao choque, e à brutalidade das colisões da humanidade que presenciei, houve momentos. Amor. Paixão. Promessa. A esperança de algo melhor. Isso tudo. Mas defronto com uma visão, e para onde quer que me volte agora, tenho essa visão. Eu era o “Apanhador” de Salinger, ali parado à beira de um campo alto de centeio, consciente da algazarra de crianças que eu não via brincando entre as ondulações e o balanço da cor, ouvindo suas risadas no pega-pega, suas brincadeiras — sua infância, digamos —, e prestando atenção à hora em que poderiam chegar muito perto do limite do campo.

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